terça-feira, 10 de julho de 2012

Por de Lua


Ocara, 16 de Junho de 2011. Cinco e pouco da manhã. Não sei por que cargas d´água acordo cedo e vou ao quintal (abertura para oeste). Ainda extasiado com o primeiro eclipse na noite anterior. 


Deparo-me com a mesma lua, um por - de - lua, acho que o primeiro a presenciar. Máquina e tripé, novamente. Uns arbustos invadiam a cena pelo poente e pareciam buscar lentamente a lua, englobando-a...


Vi quando a lua aproximou-se das folhas como se fizesse parte daquilo, descendo de um céu paulatinamente mais claro.


... Até tornar-se parte do arbusto, como se nascesse de seus botões.
Fundindo-se a eles, lentamente. Chegando a tornar-se um fruto redondo e iluminado.


Por um erro de foco, percebo outro pequeno ser a contemplar a mesma cena. Imóvel e absorto com suas asas imóveis, deveria estar ali desde antes de chegar com minhas lentes.


Ali ficamos por um tempo. Mudos, as asas caladas, totalmente parte daquele jogo único de luzes e folhas, de céus em movimento, cores, vida. 


Sugando com a alma cada movimento, cada tonalidade de azul, a luz fundindo-se ao nada, ao invisível. 


Até o dia surgir.

Fomos cúmplices de um momento que nunca mais se repetirá com aquelas folhas, aquele céu, aqueles observadores. Senti-me então unido àquele pequeno ser que simplesmente observava sem registrar nada, que apenas vivia o momento.

* * * 

Quantos anos ainda levarei para aprender isso?









O Primeiro Eclipse


       Quinze de junho de 2011. Previsto um eclipse lunar (uma grande amiga da capital me avisa por telefone, pela manhã). Viajo de Aracati para Ocara à tarde para caçar uma lua rara e exótica. Lá, resolvemos subir o único morro da cidade para a espreita. Subida ingrata para quem não está em forma, ainda carregando a máquina e o tripé. 


Mosquitos e o cansaço, chegamos ao topo e vimos que nenhuma eclipse estaria por ali naquela noite. A vista não contribuía e estava escuro para encontrarmos outro lugar. Restou-nos a volta e a dor de perder uma eclipse dali, bem acima de nossos narizes, tornou-se insuportável. 


Ao pé do morro uma pequena lua já tomada pela sombra mostrava-se a leste. 



Andamos até uma praça e nos deparamos com nossa caça totalmente distraída, exibindo-se sobre a noite. Armo o tripé quase numa esquina e ali estava meu primeiro eclipse lunar. Oferecendo-se às lentes tranquilamente, sem nenhuma necessidade de montanhas, árduas subidas, boas formas físicas ou mosquitos. Simplesmente ali, mas já em sua metade. Sem dedilhar qualquer botão ou escolher um modo, atiro. 
















Primeiras Luas



Dezenove de abril, 2011. Talvez umas 20, 21h ou pouco mais. Trabalhava em Aracati desde janeiro. Morava perto de uma praça privilegiada em vizinhanças. Em frente a uma antiga igreja (Prazeres), a praça desembocava num barzinho onde costumava caçar pores de sol. Estava por ali e me deparei com a lua surgindo ao lado da igreja. Enorme, amarela, saio feito um louco em direção ao apartamento onde morava decidido a fotografar a cena até a morte.



Persigo-a com o celular, surgindo ao lado da igreja, nas poças enlameadas em calçadas...


Subo as escadas aos tropeços (lunáticas fomes e uísque). Arranco a máquina do quarto e começo a atirar da varanda gradeada do apartamento (voltada para sudeste). Passo os dedos freneticamente nas opções da máquina, às cegas, enquanto disparava em direção àquele disco amarelo que parecia rir-se de tudo. Então surge uma pequena esfera distante mas definida na tela de fotos. Paro ali os frenéticos dedos e, com mais calma, começo a aumentar o zoom (bem depois fui perceber que tinha parado os disparos no modo "Manual"). 


Foram aparecendo discos cada vez maiores e mais nítidos - a Lua, enfim!!! No limite do zoom digital as coisas começam a tremer. Meu primeiro tripé, presente de meu pai ao visitar aquele apartamento, veio uns meses depois. 


Enfio a máquina entre as grades da varanda até que paramos de tremer (nesta hora o uísque já havia sido metabolizado em sei lá que tipo de emoções... ). 


Conseguimos as primeiras fotos lunares. Havíamos chegado à lua. Era possível, mesmo com uísques e sem tripés.


Grande momento para um "fotografero" amador. Nada profissional por aqui. Penso às vezes que as técnicas podam as emoções mais simples e espontâneas daqueles que vivem para o lado de cá das lentes. Nada de grandes técnicas ou grandes fotos. Apenas a alegria de ter chegado à lua numa noite perdida, após etílicos e filosóficos momentos de exílio no "Super Grill" (o bar). .






Passei ainda um tempo tentando repetir a "proeza", mas sem sucesso. A falta de tripé (ou de uísque ordinário do Grill).  Acabamos fazendo as pazes e tivemos muitas luas juntos. Geralmente com o tripé.



A Grande Lua de Março




Dezenove de março caiu num sábado. Prevista uma "lua gigante", a maior aproximação deste satélite da terra. Outra destas, em oitenta anos ou mais. Voltei para Quixadá e, com um amigo, subimos a Pedra do Barnei para passarmos a noite ali.


Este local já era um de nossos pontos preferidos de acampamento. relativamente alto e próximo à cidade, podíamos chegar ali a pé. Uma vista fantástica para leste. A Pedra do Índio e outras próximas surgiam no horizonte. Um por do sol especial, céu quase limpo, belas cores. 


A Grande Lua veio surgindo entre cores exuberantes de um final de tarde. Cheia, amarela, imponente. Estávamos a postos e de máquina em punho. Naquele tempo eu não conhecia o recurso de "fotos lunares", bastava um tripé e a opção "manual", daí aumentar o zoom em foco (isso eu só descobri meses depois, tarde...). Nem tinha um tripé. Coisas de um "fotografero" amador.



Passei a noite naquelas pedras. Fiquei até tarde sob o luar, ao relento. Havia uma energia diferente, tranquila, profunda, devo ter absorvido isso por horas. Escutei por horas (no celular) "Lama Dorge Chang", uma bela interpretação de Yungchen Lhamo. Sua voz atravessava a noite e o coração, suave como o  momento, ao meio de conforto físico nenhum.


naquela noite pudemos escutar o canto de um raro pássaro, sempre oculto e misterioso. O chamam de "Mãe da Lua". Meu amigo o reconheceu. Som distante e melancólico, perfeitamente integrado naquele cenário de trevas, céus e pedras. Nunca esquecerei.


As fotos ficaram medíocres. Mas o momento foi único, o lugar, o som. A vida que passava por ali em energia, os seres que habitavam aquelas pedras, aves, plantas, insetos, a vida daquele momento em conjunto.


Quixadá, habitei  por ali uns cinco anos. Deixara de trabalhar naquela cidade em  janeiro de 2011, em março já estava em duas outras cidades. Foi o maior presente daquele "Curral de Pedras".